Cresci numa cidade densa do sudeste asiático, onde o espaço era sempre negociado e o tempo parecia acelerar sozinho. O meu pai trabalhava com logística portuária; a minha mãe desenhava interiores para espaços comerciais. Em casa falava-se de prazos, de materiais e de como as pessoas se moviam dentro dos edifícios. Aprendi cedo a observar o que tornava um espaço habitável e o que o tornava apenas funcional.
Estudei arquitetura. Durante anos desenhei plantas, acompanhei obras e passei noites a ajustar detalhes em software. Gostava do trabalho. Gostava menos da sensação de que o corpo e a atenção ficavam sempre um passo atrás do calendário. As manhãs começavam com o telemóvel. As noites terminavam com o mesmo ecrã. As caminhadas, quando existiam, tinham sempre um destino e um tempo contado.
Em 2018 mudei-me para trabalhar remotamente. Os fusos horários multiplicaram-se. As reuniões aconteciam de manhã cedo e à noite. O apartamento tornou-se escritório, sala de refeições e quarto ao mesmo tempo. Foi nesse período que comecei a notar pequenas falhas no ritmo: a boca seca a meio da tarde, a dificuldade em “desligar” depois da última chamada, a ausência de qualquer momento em que o olhar não estivesse fixo num retângulo iluminado.
O ponto de viragem
Um domingo de manhã, sem nada de especial planeado, saí de casa sem telemóvel e sem destino. Caminhei durante quase uma hora por ruas que já conhecia, mas que naquele dia pareciam diferentes. Não meditei. Não contei passos. Apenas caminhei. No regresso notei que a primeira hora de trabalho tinha sido menos densa. Atribui ao acaso. Repeti no domingo seguinte. Continuou a funcionar.
A partir daí comecei a experimentar outros gestos pequenos. Deixar a cortina aberta nos primeiros minutos depois de acordar. Beber um copo de água antes de abrir o computador. Fechar a tampa do portátil a uma hora definida, mesmo que ainda houvesse mensagens por responder. Nenhuma destas ações era elaborada. O que mudou foi a qualidade da atenção que lhes dedicava.
As notas cresceram. Transformaram-se em textos mais longos. Partilhei alguns com colegas. Um deles disse: “Isto não parece conselho. Parece alguém a descrever o que realmente acontece quando se tenta viver com um pouco mais de espaço.” Essa frase ficou comigo. Decidi que o Mirahal seria exatamente isso: um espaço para descrever o que se observa quando se presta atenção aos gestos mais simples do dia.
O que este espaço não é
Não é um lugar de promessas. Não ofereço listas de dez passos nem afirmo que qualquer hábito específico resolve alguma coisa. Escrevo a partir da experiência de alguém que passa a maior parte do tempo em frente a ecrãs e que descobriu, por tentativa e erro, que pequenos ajustes no ritmo diário tornam as horas mais habitáveis.
Também não é um diário íntimo. Há partes da minha vida que ficam de fora. O que partilho é apenas o que observei sobre manhãs, caminhadas, água, distância do ecrã e o modo como a noite começa. Se alguma destas observações servir de ponto de partida para a sua própria experimentação, fico satisfeito. Se não servir, também está bem.
Onde estou agora
Continuo a trabalhar remotamente e a mudar de cidade com alguma regularidade. O endereço formal é em Singapura, mas o trabalho e as deslocações mantêm-se. O Mirahal acompanha-me como um caderno digital. Escrevo quando tenho algo concreto para dizer, não por obrigação de publicar com regularidade.
Se quiser escrever-me, o formulário de contacto está aberto. Não prometo respostas rápidas — a caixa de entrada também tem o seu ritmo — mas leio todas as mensagens com atenção.
Obrigado por ter chegado até aqui. Que os seus dias tenham a luz, a água e as caminhadas de que precisam.